| Fonte:Marcelo
Geovanini - AAN |
 |
Tatiana
Fávaro / Correio Popular A Bioware, empresa localizada na
Incubadora de Base Tecnológica da Universidade Estadual
de
Campinas (Unicamp), tem procurado investidores para
colocar no mercado uma nova tecnologia de transformação
de biomassa em
energia renovável. Mais que isso: por meio do
processo pesquisado pela empresa, é possível aproveitar
100% da matéria-prima, transformando não só resíduos
agrícolas, mas também gases, ácido e pó de carvão
vegetal em produtos comerciais. O bio-óleo é o principal
deles.
Trata-se de um combustível de origem
vegetal capaz de substituir o óleo combustível e o
diesel. O processo de produção desse bio-óleo recebe o
nome técnico de pirólise rápida com tecnologia de leito
fluidizado borbulhante. Ou seja, matérias-primas como o
bagaço da cana-de-açúcar, a serragem da madeira e
resíduos da agricultura (cascas de árvores, de arroz, de
café e até capim) são processadas em circuito fechado de
combustão. Ali, são queimadas e degradadas e se
transformam em vapor.
Para entender melhor,
imagine uma usina de cana-de-açúcar. As caldeiras onde
são queimados os resíduos da cana produzem vapor. Parte
desse vapor é usada na produção de açúcar. A outra, vai
para uma máquina, que transforma a energia térmica em
energia mecânica e, por meio de um gerador acoplado ao
equipamento, produz energia elétrica. “A diferença
en-tre esse vapor e o de uma panela de pressão utilizada
pela dona de casa é que o vapor da caldeira deve estar
superaquecido e precisa obedecer parâmetros de
o-peração, controlados com tecnologia. Diferente de uma
panela de á-gua fervendo, on-de o vapor não será
utilizado pa-ra outro fim”, diz um dos sócios da
empresa, Edgardo Olivares
Gomes.
Aproveitamento total
De
acordo com o pesquisador, por meio da pirólise é
possível obter bio-óleo, carvão fino e gás. O primeiro é
o principal produto, com até 70% de rendimento: a cada
100 quilos de bagaço de cana-de-açúcar são produzidos 70
quilos do bio-óleo.
Além de ter potencial para
substituir diesel ou outros combustíveis fósseis, o
produto pode ser usa-do na indústria alimentícia, na
construção civil como aditivo pa-ra a fabricação da
argamassa, ser aplicado como fertilizante ou substituto
de pesticidas químicos na agricultura. “Ele substitui o
fenol derivado do petróleo na fabricação de resina”,
afirma Gomes. “Uma tonelada de fe-nol custa cerca de US$
900, enquanto uma tonelada de bio-óleo sai, em média,
por US$ 100, sem falarmos em produção em escala
industrial, o que tornaria o produto mais barato”,
completa.
A empresa possui uma planta piloto
em
Piracicaba e está realizando testes com a palha da
cana-de-açúcar como matéria-prima (leia texto nesta
página).
Segundo Gomes, a pirólise é uma
tecnologia nova no Brasil. “Esse é o processo mais
simples para a obtenção do bio-óleo”, diz. Para o estudo
e desenvolvimento dessa tecnologia foram feitas
parcerias com a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado
de São Paulo (Fapesp) e Financiadora de Estudos e
Projetos (Finep). De acordo com dados da Bioware,
existem no mundo cerca de 30 grupos que estudam esse
método.
A combustão ainda resulta na produção de
um pó de carvão, que corresponde a 20% da biomassa
processada. Com o mesmo po-der calórico do carvão
co-mum, esse pó pode ser transformado em pequenos
pedaços, para queima em churrasqueiras, como o carvão
vegetal.
Gomes ressalta que 100% da matéria-prima
é aproveitada, pois até mesmo os gases liberados no
processo de pirólise são utilizados. Eles é que vão
alimentar as caldeiras das usinas de cana, por exemplo.
“Isso agrega valor ao produto”, salienta o
pesquisador.
Produtos são ecologicamente
corretos
A Bioware transforma biomassa em
energia “limpa”, assim chamada pois trata-se de um
produto final sustentável. “Produzimos energia,
combustíveis e materiais renováveis com elevado valor
agregado. Mas o mais importante disso tudo é que são
produtos que não poluem o meio ambiente, são
ambientalmente corretos”, afirma o diretor Edgardo
Olivares Gomes. “Trabalhamos com resíduos que ninguém
quer, como o bagaço da cana-de-açúcar, serragem, cascas
de arroz, café e outros. Não estamos usando a madeira
nobre, que acaba sendo empregada para fazer móveis.
Aproveitamos o que ainda é considerado sobra.”
A
empresa dá cursos, treinamentos e consultorias.
“Queremos atuar com segmentos que buscam tecnologias
novas e matérias-primas alternativas para aumentar sua
produtividade e rentabilidade”, diz, destacando setores
como a indústria química e petroquímica, a canavieira, a
florestal, a de reciclagem de resíduos orgânicos e
também o setor de energia.
Na planta piloto da
empresa, em Piracicaba, estão sendo realizados testes
com a palha da cana-de-açúcar como matéria prima para a
produção de energia elétrica. Um decreto estadual
aprovado na Assembléia Legislativa de São Paulo
determina que, até 2030, as usinas de cana-de-açúcar
devem acabar com a prática, hoje usual, de queimar a
palhada da cana nas lavouras durante a colheita. Apesar
de ser um manejo comum atualmente, a queimada é
considerada uma ameaça ao meio ambiente. Pesquisadores
do Instituto Biológico mostram que são produzidas,
anualmente, 12 toneladas de fumaça com a prática.
“Usineiros estudam rotas e técnicas economicamente
viáveis para essa palha. O uso dela para a produção de
energia elétrica pode ser uma alternativa para o
resíduo”, diz Gomes. “Mais que isso, é uma nova fonte de
energia elétrica, outra necessidade do País”, pondera o
pesquisador.
Segundo ele, algumas usinas já estão
produzindo energia elétrica para uso próprio a partir do
bagaço e da palha da cana. “Mas ainda são exemplos muito
particulares.” No caso da palha, a quantidade necessária
para produzir energia elétrica é muito grande. “Estamos
estudando como trabalhar essa relação de proporção”,
afirma ele. Além disso, o preço do transporte do resíduo
ainda não compensa. “Estamos estudando como trabalhar
essa relação de proporção”, afirma ele. Além disso, o
preço do transporte do resíduo ainda não compensa. A
empresa busca parceiros para tornar a tecnologia uma
realidade no mercado.
|