CENÁRIO XXI

Publicada em 13/12/2003

Empresa transforma biomassa em energia

Fonte:Marcelo Geovanini - AAN

Tatiana Fávaro / Correio Popular

A Bioware, empresa localizada na Incubadora de Base Tecnológica da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), tem procurado investidores para colocar no mercado uma nova tecnologia de transformação de biomassa em energia renovável. Mais que isso: por meio do processo pesquisado pela empresa, é possível aproveitar 100% da matéria-prima, transformando não só resíduos agrícolas, mas também gases, ácido e pó de carvão vegetal em produtos comerciais. O bio-óleo é o principal deles.

Trata-se de um combustível de origem vegetal capaz de substituir o óleo combustível e o diesel. O processo de produção desse bio-óleo recebe o nome técnico de pirólise rápida com tecnologia de leito fluidizado borbulhante. Ou seja, matérias-primas como o bagaço da cana-de-açúcar, a serragem da madeira e resíduos da agricultura (cascas de árvores, de arroz, de café e até capim) são processadas em circuito fechado de combustão. Ali, são queimadas e degradadas e se transformam em vapor.

Para entender melhor, imagine uma usina de cana-de-açúcar. As caldeiras onde são queimados os resíduos da cana produzem vapor. Parte desse vapor é usada na produção de açúcar. A outra, vai para uma máquina, que transforma a energia térmica em energia mecânica e, por meio de um gerador acoplado ao equipamento, produz energia elétrica. “A diferença en-tre esse vapor e o de uma panela de pressão utilizada pela dona de casa é que o vapor da caldeira deve estar superaquecido e precisa obedecer parâmetros de o-peração, controlados com tecnologia. Diferente de uma panela de á-gua fervendo, on-de o vapor não será utilizado pa-ra outro fim”, diz um dos sócios da empresa, Edgardo Olivares Gomes.

Aproveitamento total

De acordo com o pesquisador, por meio da pirólise é possível obter bio-óleo, carvão fino e gás. O primeiro é o principal produto, com até 70% de rendimento: a cada 100 quilos de bagaço de cana-de-açúcar são produzidos 70 quilos do bio-óleo.

Além de ter potencial para substituir diesel ou outros combustíveis fósseis, o produto pode ser usa-do na indústria alimentícia, na construção civil como aditivo pa-ra a fabricação da argamassa, ser aplicado como fertilizante ou substituto de pesticidas químicos na agricultura. “Ele substitui o fenol derivado do petróleo na fabricação de resina”, afirma Gomes. “Uma tonelada de fe-nol custa cerca de US$ 900, enquanto uma tonelada de bio-óleo sai, em média, por US$ 100, sem falarmos em produção em escala industrial, o que tornaria o produto mais barato”, completa.

A empresa possui uma planta piloto em Piracicaba e está realizando testes com a palha da cana-de-açúcar como matéria-prima (leia texto nesta página).

Segundo Gomes, a pirólise é uma tecnologia nova no Brasil. “Esse é o processo mais simples para a obtenção do bio-óleo”, diz. Para o estudo e desenvolvimento dessa tecnologia foram feitas parcerias com a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e Financiadora de Estudos e Projetos (Finep). De acordo com dados da Bioware, existem no mundo cerca de 30 grupos que estudam esse método.

A combustão ainda resulta na produção de um pó de carvão, que corresponde a 20% da biomassa processada. Com o mesmo po-der calórico do carvão co-mum, esse pó pode ser transformado em pequenos pedaços, para queima em churrasqueiras, como o carvão vegetal.

Gomes ressalta que 100% da matéria-prima é aproveitada, pois até mesmo os gases liberados no processo de pirólise são utilizados. Eles é que vão alimentar as caldeiras das usinas de cana, por exemplo. “Isso agrega valor ao produto”, salienta o pesquisador.

Produtos são ecologicamente corretos

A Bioware transforma biomassa em energia “limpa”, assim chamada pois trata-se de um produto final sustentável. “Produzimos energia, combustíveis e materiais renováveis com elevado valor agregado. Mas o mais importante disso tudo é que são produtos que não poluem o meio ambiente, são ambientalmente corretos”, afirma o diretor Edgardo Olivares Gomes. “Trabalhamos com resíduos que ninguém quer, como o bagaço da cana-de-açúcar, serragem, cascas de arroz, café e outros. Não estamos usando a madeira nobre, que acaba sendo empregada para fazer móveis. Aproveitamos o que ainda é considerado sobra.”

A empresa dá cursos, treinamentos e consultorias. “Queremos atuar com segmentos que buscam tecnologias novas e matérias-primas alternativas para aumentar sua produtividade e rentabilidade”, diz, destacando setores como a indústria química e petroquímica, a canavieira, a florestal, a de reciclagem de resíduos orgânicos e também o setor de energia.

Na planta piloto da empresa, em Piracicaba, estão sendo realizados testes com a palha da cana-de-açúcar como matéria prima para a produção de energia elétrica. Um decreto estadual aprovado na Assembléia Legislativa de São Paulo determina que, até 2030, as usinas de cana-de-açúcar devem acabar com a prática, hoje usual, de queimar a palhada da cana nas lavouras durante a colheita. Apesar de ser um manejo comum atualmente, a queimada é considerada uma ameaça ao meio ambiente. Pesquisadores do Instituto Biológico mostram que são produzidas, anualmente, 12 toneladas de fumaça com a prática. “Usineiros estudam rotas e técnicas economicamente viáveis para essa palha. O uso dela para a produção de energia elétrica pode ser uma alternativa para o resíduo”, diz Gomes. “Mais que isso, é uma nova fonte de energia elétrica, outra necessidade do País”, pondera o pesquisador.

Segundo ele, algumas usinas já estão produzindo energia elétrica para uso próprio a partir do bagaço e da palha da cana. “Mas ainda são exemplos muito particulares.” No caso da palha, a quantidade necessária para produzir energia elétrica é muito grande. “Estamos estudando como trabalhar essa relação de proporção”, afirma ele. Além disso, o preço do transporte do resíduo ainda não compensa. “Estamos estudando como trabalhar essa relação de proporção”, afirma ele. Além disso, o preço do transporte do resíduo ainda não compensa. A empresa busca parceiros para tornar a tecnologia uma realidade no mercado.

CPFL
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