Converter
biomassa em energia não é novidade, afinal é o que a Humanidade faz desde
da queima do primeiro pedaço de lenha para gerar calor. Fazer esta
conversão a partir de resíduos agrícolas e serragem de madeira, com 100%
de aproveitamento da matéria prima, transformando até ácidos, gases e pó
de carvão em produtos comerciais é o grande diferencial do grupo de
pesquisa do Núcleo Interdisciplinar de Planejamento Energético da
Universidade Estadual de Campinas (NIPE-Unicamp).
Há 5 anos, o grupo trabalha com a termoconversão de vários tipos de
biomassa, tendo aperfeiçoado um processo chamado de pirólise rápida,
realizado dentro de um reator de leito fluidizado borbulhante. Ou seja, a
serragem de madeira ou os resíduos agrícolas - como palha de cana, capim,
casca de arroz e cascas de árvore – são colocados numa espécie de circuito
fechado, onde queimam tão rápido que vaporizam. A maior parte do vapor,
depois de condensado, é bio-óleo, um produto que contém praticamente todas
as substâncias constituintes da madeira ou da biomassa utilizada, porém em
estado líquido.
“Os usos são múltiplos: o bio-óleo é um combustível energético e pode
substituir diesel ou outros combustíveis fósseis, com a vantagem de ser
renovável e não poluente”, comenta o engenheiro químico e doutor em
Engenharia Mecânica, José Dilcio Rocha, do NIPE-Unicamp. “Também substitui
resinas fenólicas – igualmente derivadas de petróleo – como aditivo na
fabricação de cimento celular ou nas colas para madeiras compensadas”.
O cimento celular é usado como isolante térmico e acústico na
construção civil e o uso de bio-óleo no lugar de fenol possibilita a
moldagem de paredes inteiras ou qualquer tipo de peça na própria obra, ao
contrário do produto hoje existente no mercado, vendido em placas
pré-moldadas. Já na composição das colas de madeira, a vantagem econômica
sobressai: uma tonelada de fenol custa cerca de US$ 900, enquanto a
estimativa de custo de uma tonelada de bio-óleo é de US$ 100, para a
produção em planta-piloto, sem considerar a economia da produção em escala
comercial.
Do mesmo vapor resultante da pirólise rápida, além do bio-óleo, sai
também um líquido, chamado de ácido pirolenhoso, utilizado pela indústria
alimentícia como aditivo, para imitar o sabor dos defumados. O líquido tem
outras aplicações, na agricultura orgânica, na substituição de pesticidas
químicos. Por ser muito ácido e grudar nas folhas, funciona como repelente
de insetos-praga. Em alguns casos também é aplicado junto às raízes, no
controle de nematóides.
O processo de queima ainda resulta na produção de um pó de carvão, que
corresponde a uma média de 15% da biomassa processada. Com o mesmo poder
calórico do carvão comum, o pó pode ser aglutinado com gomas (amido de
mandioca, por exemplo) e briquetado, isto é, transformado em pequenos
blocos, para queima em churrasqueiras e fornos, como o carvão vegetal em
pedaços.
“E nem os gases, liberados no processo de pirólise, são desperdiçados:
como são gases combustíveis podem alimentar caldeiras ou realimentar o
próprio reator. Ou seja, o aproveitamento da matéria prima é integral,
tudo pode ser transformado em produto, agregando valor ao bio-óleo”,
acrescenta Rocha, que trabalha com outros 3 pesquisadores da Engenharia
Agrícola da Unicamp, mais uma estudante de doutorado.
Eles constituíram, há um ano, a empresa Bioware, atualmente incubada no
Centro de Tecnologia da Unicamp, com financiamento do Programa de Inovação
Tecnológica em Pequenas Empresas (PIPE) da Fundação de Amparo à Pesquisa
do Estado de São Paulo (Fapesp). A pesquisa do bio-óleo também obteve
outros recursos e bolsas da Fapesp e da Financiadora de Estudos e Projetos
(Finep), totalizando aproximadamente R$ 500 mil, desde seu início. De
acordo com José Dilcio Rocha, com o apoio de investidores, a tecnologia da
Bioware poderia se transformar em produtos comerciais, disponíveis para o
mercado, já a partir de 2004.